quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Posicionamento da Vida Brasil sobre o Momento Eleitoral e os Desafios da Democracia no Brasil e na Bahia




 A Vida Brasil, organização de direitos humanos sediada em Salvador e comprometida com a democracia, a soberania nacional e dos povos e a participação popular, vem a público expressar seu posicionamento em um momento eleitoral marcado por graves ameaças globais e nacionais à preservação da institucionalidade democrática no país.



Contexto eleitoral e democracia


As eleições de 2026 ocorrem em um cenário de intensa polarização política e de avanço de

movimentos de extrema-direita no Brasil, na América Latina e em outros continentes. A disputa

eleitoral brasileira possui, assim, uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais e incide sobre

a dinâmica da América Latina e do Sul Global.


A defesa da democracia não pertence a um partido, governo ou corrente política específica, mas a

toda a sociedade. Envolve a preservação do Estado Democrático de Direito, das instituições

democraticamente constituídas, de eleições livres, da liberdade de organização e manifestação, da

liberdade de imprensa, do direito à divergência e da participação popular nas decisões públicas. Não

há democracia sem a participação da sociedade civil organizada.


Devem ser reconhecidos os avanços trazidos pela Lei do MROSC – Marco Regulatório das OSCs para

ampliação da participação, a exemplo da atuação do conselho CONFOCO – Conselho de Fomento e

Colaboração, no âmbito nacional e estadual, assim como de diversos outros espaços e políticas,

como de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) ou os planos safra da agricultura familiar. No

Entretanto, permanecem, de forma geral, desafios relacionados ao financiamento das políticas sociais,

à participação da sociedade civil e à construção de políticas para os territórios urbanos e rurais.

Vale ressaltar que a falta de reforma política estrutural e o caráter personalista do sistema eleitoral

tendem a enfraquecer pautas sociais e colocam desafios para as organizações da sociedade civil.

Para a Vida Brasil, as eleições constituem uma etapa importante da construção de uma sociedade

democrática, mas não encerram a luta por direitos, justiça social e participação popular.


Desafios estruturais persistem. Dentre eles, o orçamento da União, controlado aproximadamente em

40% pelo Congresso, através do sistema de emendas parlamentares, reduz substancialmente a

margem de manobra para a implementação de políticas sociais, além de canalizar a maior parte dos

recursos para o setor empresarial e facilitar relações de clientelismo e subserviência com as OSCs.

Esse sistema também freia a renovação do quadro de parlamentares. Para as OSCs, o acesso a fundos

públicos, de forma geral, continua restrito à implementação de políticas governamentais e incipiente

para atividades de controle social.


De forma geral, Vida Brasil defende:


• aperfeiçoamento do ambiente jurídico, político e institucional das OSCs, preconizado pela lei

federal 13.019 (MROSC) garantindo a sustentabilidade financeira, a segurança jurídica e o

reconhecimento delas como parceiras fundamentais na construção da democracia e das

políticas públicas.

• Fortalecimento de conferências, conselhos e fóruns, garantindo que a participação social

tenha efeitos concretos na formulação, implementação e avaliação das políticas públicas.


Segurança e soberania nutricional e alimentar


A Bahia apresentou avanços no combate à fome e na redução da insegurança alimentar (que atingiu

30 milhões de pessoas entre 2023 e 2025), apoiados por políticas públicas e pela participação de

OSCs. A Bahia, em especial, foi o estado que mais criou conselhos de SAN nos municípios.

Globalmente, o Brasil assim saiu do mapa da fome, mas a fome ainda não saiu do mapa do Brasil, o

que exige que os programas implementados sejam fortalecidos e acompanhados de novas políticas

complementares de promoção da segurança e soberania alimentar e nutricional.


A Vida Brasil assim defende:


• Ampliação e garantia de recursos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)

e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com maior participação da agricultura

familiar e prioridade para agroecologia, mulheres e juventudes rurais;

• Fortalecimento da transparência e ampliação de editais acessíveis às organizações da

sociedade civil, incluindo para atividades de controle social;

• Inclusão da agricultura urbana nas políticas de agricultura familiar e segurança alimentar e

nutricional;

• Expansão do Plano Safra da Agricultura Familiar, com crédito diferenciado para a produção

de alimentos da cesta básica, agroecologia e produção orgânica;


Direitos das pessoas com deficiência


A história das políticas públicas para pessoas com deficiência na Bahia também é resultado da

mobilização de pessoas com deficiência e de suas organizações, que há décadas ocupam conselhos,

conferências, parlamentos e outros espaços de formulação de políticas, afirmando a autonomia e

os direitos dessa população. A Vida Brasil e a Rede COCAS-Comissão Civil de Acessibilidade foram

pioneiras nesse sentido na Bahia.


Entre 2020 e 2026, houve avanços na institucionalização de políticas, na acessibilidade, na

participação social e eleitoral e na implementação do Passe Livre Intermunicipal Digital. Persistem,

contudo, dificuldades para transformar direitos reconhecidos em lei em direitos efetivamente

exercidos. Nesse sentido, é imprescindível estimular a participação da sociedade civil em espaços de

mobilidade, acessibilidade e desenvolvimento urbano em políticas de mobilidade urbana, a exemplo

do debate sobre a Ponte Salvador–Ilha de Itaparica: o papel da sociedade civil é questionar impactos,

acessibilidade, mobilidade, habitação, saneamento, regularização fundiária, meio ambiente e

desenvolvimento regional.


A acessibilidade na educação continua sendo uma demanda importante, sem a devida escuta

governamental. Organizações e movimentos de pessoas com deficiência ainda enfrentam

dificuldades para participar de forma efetiva dos processos de decisão. É necessário superar a

participação meramente simbólica: não basta ouvir as pessoas com deficiência após uma decisão, é

Preciso assegurar sua participação na construção das políticas; não basta criar conselhos, é

necessário garantir seu funcionamento; e não basta aprovar leis, é preciso assegurar sua

implementação.


A Vida Brasil defende:


• Fortalecimento da participação das pessoas com deficiência nos espaços de tomada de

decisão, com autonomia e independência das organizações, iniciando com a avaliação do

COEDE;

• Efetivação do Passe Livre Intermunicipal Digital, eliminando barreiras na emissão de

passagens e no atendimento pelas empresas;

• Fortalecimento da educação especial e inclusiva, com condições materiais, institucionais e

pedagógicas adequadas;

• Ampliação da participação política e partidária das pessoas com deficiência, inclusive por

meio de mecanismos que assegurem condições mais equitativas para candidaturas;

• Garantia de acessibilidade física, comunicacional, tecnológica e atitudinal nos espaços

públicos e privados de uso coletivo;

• Integração da pauta da deficiência às políticas de habitação, saneamento, regularização

fundiária, mobilidade e desenvolvimento urbano.


Compromissos para o futuro


Diante dos desafios da democracia no Brasil e na Bahia, a Vida Brasil compreende que os desafios

ultrapassam a disputa eleitoral e necessitam de uma atuação em diferentes horizontes: no plano

imediato, acompanhando o processo eleitoral; no médio prazo, contribuindo para a consolidação e

o aprimoramento das políticas públicas; e, no longo prazo, participando da construção de

transformações estruturais na sociedade.


O nosso compromisso com o futuro digno e justo nos leva também a nos posicionarmos e a conclamar

fortemente a sociedade a lutar contra a possibilidade de eleição, para os diferentes níveis de

governo, de candidaturas e partidos com ideologias de extrema direita, ou mesmo aliados a estes.

No Brasil, as conquistas obtidas por meio das lutas de direitos humanos e o respeito aos direitos das

diversidades, obtidos pelo trabalho da sociedade civil organizada, podem sofrer retrocessos

duríssimos com a ascensão desses retrógrados setores ao poder.


Políticos e partidos alinhados a grupos fascistas, a milícias e a todos aqueles que fazem apologia à

necropolítica, que afeta principalmente a população negra e pobre, não devem assumir o poder das

instituições em um país que preza pela democracia e zela pelo futuro de seu povo. O exemplo

assombroso de um líder de partido de direita no ato de campanha que ocorreu em Salvador no dia

27 de setembro de 2026, em frente à Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no bairro do

Canela, pedindo a chacina e banho de sangue em duas das comunidades mais pobres e mais

segregadas da capital baiana, a menos de 8 dias das eleições, deixa claro ao que estaremos

submetidos e permitindo enquanto sociedade. Não podemos entregar o país e o futuro da nossa

gente nas mãos dos que querem governar com violência, discriminação e desmonte das instituições

e estruturas da democracia brasileira.


A Vida Brasil reafirma seu compromisso com a democracia, com o aprimoramento de políticas

inclusivas da diversidade, a exemplo de políticas com ênfase nas questões de gênero, raça e

deficiência, bem como com a participação contínua e o fortalecimento da sociedade civil na

construção das políticas públicas. Esse processo deve permanecer democrático, plural, crítico,

propositivo, autônomo e independente.


Salvador-Bahia, 29 de setembro de 2026.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Vida Brasil leva projeto Comida no Prato à África

 A Vida Brasil marca presença no Fórum Social Mundial, evento focado em reunir lideranças da esquerda política de diversos setores para discutir alternativas para um outro mundo possível.

Essa edição do Fórum ocorre no Benin, na cidade de Cotonou e possui mesas e oficina temáticas voltadas para práticas de economia solidária e intercâmbio de saberes nutricionais em escala mundial.

Mais do que apresentar, foi um momento de troca: experiências de economia solidária e  segurança alimentar do Brasil dialogando com as vividas por outros países e organizações presentes, fortalecendo pontes entre continentes na construção de alternativas mais justas e sustentáveis.

O projeto Comida no Prato segue em atividade. As cinco cozinhas comunitárias, sendo uma delas gerenciada pela Vida Brasil, estão espalhadas por Salvador e continuam focadas em alimentar quem mais precisa e realizando o processo de busca ativa para trazer serviços públicos para pessoas em situação de marginalização e em comunidades onde se concentram famílias negras, principalmente as chefiadas por mulheres.

A Vida Brasil busca expandir seus saberes, para realizar ações mais significativas no contexto soteropolitano, visando cumprir o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar, que garante alimentação saudável nas escolas públicas) e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos, que compra a produção da agricultura familiar para abastecer redes de segurança alimentar).

domingo, 31 de maio de 2026

Comida no Prato: fortalecer quem já alimenta os territórios

 Há mais de três décadas, a Associação Vida Brasil atua na promoção dos direitos humanos, da cidadania e do desenvolvimento comunitário em Salvador. Ao longo dessa trajetória, a organização construiu sua atuação ao lado de comunidades periféricas, fortalecendo iniciativas de economia solidária, segurança alimentar, desenvolvimento territorial e participação social. Essa experiência é a base que sustenta o projeto Comida no Prato, uma iniciativa que compreende que o combate à fome começa pelo reconhecimento das redes comunitárias que já existem e resistem diariamente.  

Mais do que distribuir alimentos, o Comida no Prato fortalece cozinhas solidárias, cooperativas, associações comunitárias e terreiros de matriz africana que, há muito tempo, acolhem famílias e compartilham cuidado em seus territórios. A metodologia do projeto parte da escuta, da participação social e da construção coletiva, entendendo que ninguém conhece melhor uma comunidade do que quem vive sua realidade todos os dias. Essa atuação é realizada em parceria com organizações locais, respeitando seus saberes e ampliando sua capacidade de promover segurança alimentar e geração de renda.  

 Essa visão sintetiza o propósito do projeto: fortalecer quem já faz a diferença nos territórios e construir soluções duradouras para o enfrentamento da fome, tendo as comunidades como protagonistas do próprio desenvolvimento.