terça-feira, 27 de outubro de 2015

Seminário em Salvador reúne movimento social internacional

No dia 29 de Outubro, das 9h às 18h, representantes do movimento social brasileiro e estrangeiro participarão do seminário “Diálogos Impertinentes: o Fórum Social Mundial (FSM) na construção de um outro mundo possível”. O evento, gratuito, irá ocorrer durante todo o dia e promoverá o diálogo entre os membros do Conselho Internacional do Fórum e representantes da sociedade civil baiana e brasileira.



O objetivo do encontro, que será realizado no hotel Vilamar (Amaralina), é fazer uma reflexão conjunta sobre a reinvenção do FSM e do seu Conselho Internacional, diante da atual conjuntura planetária. O debate irá recolher contribuições do movimento social brasileiro para a reunião fechada do Conselho, que acontecerá nos dias 30 e 31, também em Salvador.

O seminário contará com três rodas de diálogo. A primeira irá debater as conjunturas regionais e a solidariedade entre os povos, contando com representações curdas e palestinas. Na parte da tarde, a segunda mesa discutirá os atuais desafios do FSM e do processo de reestruturação do Conselho Internacional.

Alaa Talbi (quarto à direita), do movimento social tunisiano também estará presente. Recentemente a sociedade civil da Tunísia ganhou o Nobel da Paz, pela participação na Primavera Árabe e a luta por democracia

A última mesa de debates contará com membros do comitê organizador do Fórum Social Temático, que será realizado de 19 a 24 de janeiro, em Porto Alegre; e do Fórum Social Mundial 2016, que acontecerá em agosto, na cidade de Montreal, no Canadá. Os organizadores irão apresentar o processo de construção desses dois eventos.

Ao menos 50 participantes de fora da Bahia já estão confirmados, além de representações da América Latina, Canadá, Europa e África. Há a expectativa de contar com representantes do movimento social da Tunísia, que recentemente ganhou o Nobel da Paz pelo movimento de luta por democracia que ficou conhecido como “Primavera Árabe”.

Parte da delegação brasileira no Fórum Social Mundial 2015, realizado na Tunísia, em março.


Para Damien Hazard, coordenador da Vida Brasil, diretor-executivo da Abong (Associação Brasileira de ONGs) e membro do Comitê Internacional, o processo do FSM “está se reinventando na nova conjuntura de transformação acelerada do planeta”. Ele destaca a importância desse Seminário e da reunião do Conselho Internacional acontecerem em Salvador, pois, segundo ele, “a Bahia sempre teve papel importante no FSM e experimentou nos últimos anos um coletivo que soube se reinventar, na sua composição, na sua forma de vivenciar a diversidade e de fazer política, com uma radicalização das suas práticas democráticas”. Damien acredita que o movimento social baiano pode contribuir “com essa busca de ressignificação do FSM”.

O Seminário é promovido pelos Coletivos Brasileiro e Baiano do Fórum Social Mundial e pelo Conselho Internacional do Fórum, com os apoios da Abong (Associação Brasileira de ONGs), CTB, CUT, governo do Estado da Bahia e Associação Vida Brasil.

INSCRIÇÕES

As inscrições, gratuitas, podem ser feitas através do envio de email para seminariofsmsalvador@gmail.com, contendo os seguintes dados: nome, gênero, instituição, cargo/profissão; além de email e telefone para contato.


Mais informações: 71 3322-0711 (Vida Brasil)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Semana Nacional pela Democratização da Comunicação foi destaque na Bahia

De 14 a 21 de outubro diversos estados do Brasil realizaram ações para promover a Semana Nacional pela Democratização da Comunicação. Na Bahia, as atividades aconteceram em Salvador, Lauro de Freitas, Conceição do Coité, Vitória da Conquista, Cachoeira e Ilhéus. A articulação no Estado se deu a partir do CBCom – Coletivo Baiano pelo Direito à Comunicação, em parceria com diversas representações, professores e estudantes.


Alex Hercog (Vida Brasil / Intervozes / CBCom)
Para Alex Hercog, membro do CBCom, do Intervozes e da Vida Brasil, a realização da Semana pela DemoCom foi fundamental: “não podemos recuar em relação ao debate do direito à comunicação, sobretudo porque o nosso modelo midiático pouco mudou nos últimos anos”. Para ele, alguns desafios históricos ainda permanecem: “o oligopólio midiático se mantém; o setor continua sem regulamentação; e nunca foi feita uma revisão das concessões públicas, fazendo com que políticos e seus familiares ainda detenham o controle dos meios de comunicação”. Para Alex, outros problemas que precisam ser solucionados são o fim da propriedade cruzada dos meios, uma distribuição mais democrática das verbas de publicidade estatais, e o desenvolvimento de políticas públicas que estimulem a produção alternativa, a diversidade e a descentralização dos meios de comunicação, “para garantir a liberdade de expressão para toda a sociedade e não apenas para poucos grupos” – conclui.

Salvador
     
UNEB/Salvador
A Semana pela DemoCom começou no dia 14 de outubro, com a primeira atividade sendo realizada na sede da Vida Brasil, durante reunião do Coletivo Baiano do Fórum Social Mundial. No dia 15, os organizadores do Encomum promoveram um debate na UNEB sobre “Democratização da comunicação e mídias alternativas”. Participaram a jornalista Ivana Dorali; Yananda Lima e Laura Almeida (Desabafo Social; Carlos Jota (Site Nosso Engenho) e Alex Hercog (Vida Brasil/Intervozes).


No sábado, 17, um encontro cultural realizado no Instituto de Mídia Étnica marcou o dia nacional pela Democratização da Comunicação. O evento contou com exibição de vídeos produzidos pelo Coletivo Tela Preta, sarau de poesia com o grupo Resistência Poética, rap com Trampo MC e convidados, além do lançamento da cartilha “Caminhos para a luta pelo direito à comunicação no Brasil”, publicado pelo Intervozes.

Instituto de Mídia Étnica

 Na quinta (22) foi realizado o debate sobre “Direito à Comunicação, Educação e Terceiro Setor” no campus da Unifacs, com a participação de Alex Hercog (Vida Brasil/Intervozes) e Everton Nova (Rede Mbote). Por fim, na sexta (23), o Instituto de Mídia Étnica (IME) promoveu uma coletiva para apresentar a agenda de comemoração de 10 anos do Instituto. Para Paulo Rogério, coordenador do IME, a Semana pela Democratização da Comunicação tem um simbolismo especial, pois “foi durante a Semana que o Mídia Étnica surgiu e hoje completa 10 anos de existência”.
     
Unifacs / Salvador

Lauro de Freitas
Em Lauro de Freitas, a atividade ocorreu na Base Comunitária da Polícia Militar em Itinga, no município de Lauro de Freitas. O debate girou em torno da representação midiática sobre os jovens da periferia, do controle midiático e da violência. Alguns policiais e cerca de 20 adolescentes participaram da atividade.

Em uma das falas, um soldado lembrou o episódio que ocorreu em 2001, em Salvador, quando a Tropa de Choque da PM invadiu a UFBA (Universidade Federal da Bahia) para dispersar violentamente os estudantes que protestavam contra o senador Antônio Carlos Magalhães. Na época, a TV Bahia, filial da rede Globo e controlada pela família Magalhães, omitiu essa ação dos noticiários, o que fez ativar o debate sobre a concessão pública de tv para políticos e seus familiares.

Itinga (Lauro de Freitas)
 Alguns jovens também relataram a discriminação sofrida no mercado de trabalho por serem moradores de bairros estigmatizados pela grande mídia, sobretudo por programas e jornais policialescos, que representam os bairros periféricos apenas sob a ótica da violência e marginalidade de seus moradores.

Itinga (Lauro de Freitas)
Quem conduziu essa atividade, representando o CBCom, foram Bruna Pegna e Mirian Souza, de 18 anos, que comentou que o principal destaque da roda de diálogo foi “a importância dos jovens refletirem sobre a forma como eles são representados pela mídia e quais as ações que eles podem fazer para se mobilizar e garantir o direito à comunicação”.

Cachoeira
Na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, o debate aconteceu na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) e discutiu a “Sustentabilidade das Mídias Alternativas”. Participaram Alane Reis (Revista Afirmativa), Alex Hercog (Vida Brasil/Intervozes), Geilson Gomes (Revista Rever), Thainá Dayube (Sete Artes) e Tássio Santos (Herdeira da Beleza), que apresentaram suas experiências com mídias alternativas, além das dificuldades e soluções para enfrentar o problema de sustentabilidade desses meios.
Alane Reis (centro), Thainá Dayube e Tássio Santos (esq.), Geilson Gomes e Alex Hercog (dir.)

UFRB/Cachoeira
Para Alane Reis, que se formou na UFRB e começou a produzir a Revista Afirmativa ainda na época de estudante, debater a democratização da comunicação é pensar coletivamente a conquista de um direito negligenciado pelo Estado, que é o direito à comunicação e liberdade de expressão. Segundo ela, “falar de democracia plena sempre será utopia, se os principais meios de comunicação pertencerem ao setor privado”. Ela acredita que a profissão de jornalista é fundamental para perpetuar ou combater as violências e estigmas que fazem parte da cultura fundadora do Brasil. Por isso, a importância de incluir Cachoeira na agenda de atividade da Semana pela DemoCom, pois “é importante mobilizar o debate na Universidade e questionar as diretrizes curriculares”, conclui Alane.


Conceição do Coité
Na UNEB/Coité (Universidade do Estado da Bahia), o projeto “Prazer em Conhecer”, promovido pelo professor Moisés Santos, recebeu o professor-mestre Dioclécio Luz (Universidade de Brasília) que participou da palestra “O jornalismo nas rádios comunitárias” e realizou oficinas de “Análise Crítica da Mídia”.

UNEB / Conceição do Coité
Para Moisés, a atividade foi importante para mobilizar a universidade acerca da discussão sobre democracia e direito à comunicação. Segundo o professor, esse debate é quase um tabu na sociedade, por isso a importância de realizar atividades no município: “Mesmo longe dos grandes centros urbanos, ao nosso modo, sob um olhar local e regional, queremos estar juntos e engajados nessa luta nacional”.

Moisés Santos também destacou o debate em torno das rádios comunitárias que, segundo ele, “contribui para democratizar o sistema midiático, apesar dos esforços do Estado e dos políticos para criminaliza-las, além das burocracias que tentam sufocar o movimento”. O professor ainda anunciou que o debate em torno da comunicação pública será central no próximo semestre do curso, destacando que “é imperativo debatermos constantemente o direito à comunicação, que é tão fundamental como o direito à saúde, educação e segurança”.

Vitória da Conquista
No sudoeste baiano, na cidade de Vitória da Conquista, a Revista Gambiarra promoveu a roda de conversa “Qual o papel dos Movimentos Sociais na luta pela democratização da comunicação?”. A atividade ainda contou com a exibição do documentário “Um poquito de tanta verdad", do diretor Jill Freidberg, que discute a relação de mídia e poder, a partir dos acontecimentos ligados ao levante popular ocorrido em Oaxaca (México), em 2007.

Vitória da Conquista
Para Rafael Flores, da Revista Gambiarra, o debate sobre comunicação em Vitória da Conquista ainda é incipiente, por isso que o foco do debate girou em torno dos movimentos sociais e sua participação na luta pela democratização. Rafael destacou que “o bacana foi que a ampla participação possibilitou que o poder público municipal apontasse as formas de ocupação que serão abertas a partir do Canal da Cidadania, que chega a Vitória da Conquista no próxima ano”. Segundo Rafael, a atividade promovida foi além do didatismo, de apenas apontar o que está errado e da necessidade de regulação e regulamentação, “mas também de enxergar soluções práticas e locais”.

Ilhéus
No sul da Bahia, o CACOS (Centro Acadêmico de Comunicação Social) da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz) incluiu o debate sobre a democratização da comunicação nas atividades da Calourada Acadêmica. No dia 23, a Enecos (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social) realizaram a roda de diálogo “Comunicar pra que (m)?”

UESC / Ilhéus
Durante a atividade, foi apresentado aos calouros um panorama sobre o movimento estudantil de comunicação e as principais pautas reivindicadas pelo movimento pelo direito à comunicação. Também foi debatido o uso de mídias universitárias.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A Vida Brasil na construção da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação


De 14 a 21 de outubro, diversos estados irão promover a Semana Nacional pela Democratização da Comunicação. Na Bahia, a Vida Brasil vem contribuindo na articulação, mobilização e realização de diversas atividades em Salvador, região metropolitana e municípios do interior. Desde o começo de 2015, quando participou da criação do CBCom – Coletivo Baiano pelo Direito à Comunicação, a Vida Brasil vem ampliando a sua participação no movimento pela democratização da comunicação no país.

Por considerar a Comunicação e o papel da mídia fundamentais para a construção democrática e garantia dos direitos humanos, a Vida Brasil decidiu intensificar os esforços na promoção da Semana pela “DemoCom”. Para Alex Hercog, assessor de Comunicação da Vida Brasil, a atual crise política que o país vive exige uma reação dos setores progressistas: “o avanço das pautas conservadoras, a articulação política de setores historicamente anti-democráticos e o próprio recuo do governo federal aumentam a responsabilidade da sociedade civil na defesa e construção de uma democracia efetiva”. Nesse sentido, “democratizar a comunicação é um eixo fundamental na luta do movimento social, já que o oligopólio midiático existente no Brasil é composto, justamente, por empresas e famílias que apoiaram e se beneficiaram da ditadura militar, além de possuir um histórico de criminalização dos movimentos sociais”.

Em 14 de outubro, dia que abre a Semana pela DemoCom, a Vida Brasil irá promover uma roda de diálogo sobre direito à comunicação durante a reunião do Coletivo Baiano do Fórum Social Mundial. Nos demais dias, participará de diversas atividades em Salvador e no interior, como no encontro de comemoração do “Dia Nacional pela Democratização da Comunicação” (17/10, no Instituto de Mídia Étnica); na formação preparatória para o Encomum (15/10, na UNEB/Salvador); e no seminário “Democratização da Comunicação e terceiro setor” (22/10, Unifacs).

A programação completa da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação está disponível na página do CBCom:

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Dia de Ação Global pelos ODS é realizado em Salvador

No dia 24 de Setembro, artistas e representantes do movimento social baiano se reuniram na praça Castro Alves, em Salvador, pra comemorar o Dia de Ação Global pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A “praça do povo” recebeu a banda percussiva Purificayê, de Irará, que deu o tom da festa. Junto com os jovens artistas do CRIA, dança, poesia e grafite, o centro de Salvador ficou colorido com arte e iluminado com as velas que simbolizavam o desejo de um novo mundo possível.



Diversos segmentos sociais construíram e participaram do ato. Representantes do movimento da pessoa com deficiência; Economia Solidária; Democratização da Comunicação; sindicalista; movimento negro; ambientalistas; contra os agrotóxicos; e de arte-educação foram alguns dos que estiveram presentes no Dia de Ação Global, estendendo suas faixas e apresentando os Objetivos para o Mundo, a partir de uma perspectiva local.

Cerca de 150 pessoas participaram do ato. Além dos movimentos de Salvador, também estiveram presentes representações dos municípios de Irará, Feira de Santa e Ilha de Maré.



O evento mostrou a força da arte para mobilizar e alcançar a incidência política, necessária para que os ODS sejam pensados localmente, levando em consideração as particularidades e necessidades de transformação específicas.

Saiba mais sobre o evento:

Álbum de fotos:

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Dia de Ação Global pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é realizado em Salvador


A Abong (Associação Brasileira de ONGs) e o Coletivo Baiano do Fórum Social Mundial, que reúne mais de 30 organizações, irão realizar o ato de mobilização em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A ação global acontece em diversas cidades do mundo no dia 24 de Setembro, véspera da cúpula da ONU (Organizações das Nações Unidas) que aprovarão os 17 ODS para o período de 2015 a 2030.


Em Salvador, o ato irá ocorrer na praça Castro Alves, a partir das 15 horas até o final do pôr-do-sol. Diversos grupos culturais e artísticos irão se apresentar durante a atividade, a exemplo da banda Purificayê, de Irará, além de representantes de diversos segmentos do movimento social, que debaterão os 17 ODS e a sua incidência local.
Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável substituem os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançados pela ONU em 2000, cuja vigência expira no final de 2015. Os novos ODS tratam de grandes problemáticas da sociedade: pobreza, desigualdades; segurança alimentar; água e saneamento; educação inclusiva; igualdade de gênero; mudanças climáticas; etc.
Para Damien Hazard, coordenador da Vida Brasil, “todos esses debates, aparentemente distantes das nossas preocupações cotidianas, atingem em cheio a nossa realidade. A Agenda Pós-2015 não é apenas uma agenda internacional, mas também é de abrangência subnacional (estadual, territorial e municipal) e norteará políticas públicas e recursos financeiros”.



O representante da Conen (Coletivo Nacional de Entidades Negras), Gilberto Leal, lamenta a ausência de objetivos diretamente ligados à questão racial, mas compreende que essa pauta está atrelada a diversas metas: “A questão racial, sobretudo no caso do Brasil, é estruturante na sociedade. Por isso que o cumprimento de objetivos como o da redução das desigualdades inevitavelmente passa pelas mudanças de políticas que atingem diretamente a população negra, como a política de segurança pública e a adoção de medidas afirmativas e reparadoras”.
Diversas atividades de mobilização antecederão o ato do dia 24. É o caso do CRIA (Centro de Referência Integral do Adolescente), que está promovendo oficinas com os jovens da organização para debater os ODS e relacioná-los com a realidade local. O resultado das oficinas será apresentado no dia 24.

Jovens do CRIA confeccionando os suportes para as velas que serão acesas no ato


Participam da organização do ato: ADOCCI, Apalba, Afoxé Bamboxê, Associação Manuel Faustino, Coofe, Cooperativa Sonhos Possíveis, Conam, Conen, Coletivo Bahia 21, CESE, CRIA, CTB, ICS, Instituto Palmares, FABS, Fetim, Germen, Rede de Alimentação de Economia Solidária da Bahia UBM, Unegro e Vida Brasil, além de representantes de comunidades tradicionais e do movimento de pessoa com deficiência de Feira de Santana.

Mais informações sobre os ODS:

O que: Dia de Ação Global pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Local: Praça Castro Alves, av. Carlos Gomes, Centro, Salvador, Bahia.
Horário: 15 às 19 horas
Realização: Abong (Associação Brasileira de ONGs), Coletivo Baiano do Fórum Social Mundial
Inscrição: Gratuita e aberta
Informações: comunicacaovidabrasil@gmail.com / 71 3321-4688


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e Agenda Pós-2015

Estamos a trinta dias da 70ª Assembleia geral das Nações Unidas que consagrará um novo marco de desenvolvimento para o planeta: é a Agenda Pós-2015 que institui os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para os próximos 15 anos. Os ODS sucedem aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), lançados em 2000 e com prazo de vigência até 2015.

Concebidos por meio de um processo muito mais participativo do que para construção dos ODM, os ODS também são mais ambiciosos e envolvem o debate sobre o modelo de desenvolvimento que queremos e que precisamos. Os ODS surgem da convergência das conferências sobre desenvolvimento e sobre sustentabilidade ambiental, como a Rio+20 em 2012. Além da Assembleia da ONU em Nova Iorque, ocorrem este ano dois outros importantes eventos no âmbito das Nações Unidas, de negociações internacionais voltadas para uma ação global em prol do planeta e da humanidade: a Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento que ocorreu em julho na Etiópia, com resultados aquém do esperado, e a COP 21 sobre mudanças climáticas, em Paris, no próximo mês de dezembro.

Todos esses debates e negociações, aparentemente distantes das nossas preocupações cotidianas, atingem em cheio a nossa realidade e o nosso futuro, assim como de todos os povos do mundo. A Agenda Pós-2015 não é apenas uma agenda nacional ou internacional, mas também é de abrangência subnacional (estadual, territorial e municipal) e norteará políticas públicas e recursos financeiros. Por isso, os ODS merecem a atenção dos mais diversos atores sociais, tanto no atual processo de discussão e elaboração do seu marco conceitual, quanto nas próximas fases de implementação de políticas e programas, além do seu monitoramento.

Artigo publicado no dia 20/08/2015 no jornal A Tarde


O desenvolvimento sustentável cobre três dimensões: econômico, social e ambiental. São 17 ODS* que correspondem a 169 metas. Os ODS tratam de grandes problemáticas da sociedade: pobreza, desigualdades; vidas saudáveis e bem estar; segurança alimentar; água e saneamento; educação inclusiva; igualdade de gênero; mudanças climáticas; biodiversidade; oceanos; energia; crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável; emprego e trabalho decente; cidades; infraestrutura; consumo e produção; paz; parceria global; e meios de implementação, entre outras questões.

A fase, em curso, de elaboração de indicadores referentes às diversas metas deve seguir até março de 2016. Segundo a Fundação Abrinq, 12 dos 17 objetivos não possuem no Brasil indicadores para todas as suas metas. Os indicadores dão sentido às metas e o seu detalhamento deve contribuir para que “ninguém seja deixado para trás”, como lembra uma das ideias chaves da Agenda Pós-2015.

Vejamos o objetivo 16: “Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, oferecer a todos o acesso à justiça e construir instituições efetivas, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”. Por trás de um debate aparentemente técnico, surgem perguntas que interessam a todas e todos. O que significa a construção de uma sociedade de paz na América Latina, líder no ranking dos homicídios (com um terço do total no mundo)? Que avanços podem ser medidos em um país como o Brasil, que é campeão de homicídios intencionais, e cujas vítimas são em maioria jovens homens negros da periferia das grandes cidades? Quais deveriam ser os indicadores para o nosso país, o nosso estado e o nosso município?

Assim como nos processos de negociação intergovernamental, a Agenda Pós-2015 é e será o palco de interesses muitas vezes antagônicos. A sociedade civil, que defende um desenvolvimento voltado para efetivação dos direitos humanos para além do crescimento econômico, não pode ficar fora deste debate.



Damien Hazard

Coordenador geral da ONG Vida Brasil e diretor executivo da Abong- Associação Brasileira de ONGs

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* Os 17 ODS são:

ODS1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;

ODS2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição, e promover a agricultura sustentável;

ODS3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades;

ODS4. Garantir educação inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizado ao longo da vida para todos;

ODS5. Alcançar igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas;

ODS6. Garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos;

ODS7. Garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e moderna para todos;

ODS8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos;

ODS9. Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável, e fomentar a inovação;

ODS10. Reduzir a desigualdade entre os países e dentro deles;

ODS11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis;

ODS12. Assegurar padrões de consumo e produção sustentáveis;

ODS13. Tomar medidas urgentes para combater a mudança do clima e seus impactos;*
*Reconhecendo que a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC) é o principal fórum internacional e intergovernamental para negociar a resposta global à mudança do clima.

ODS14. Conservar e promover o uso sustentável dos oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável;

ODS15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater à desertificação, bem como deter e reverter a degradação do solo e a perda de biodiversidade;

ODS16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis;

ODS17. Fortalecer os mecanismos de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vida Brasil contra a redução da maioridade e em defesa da educação das crianças e adolescentes

Agosto é um dos principais meses do ano para se discutir a educação básica das crianças e adolescentes no país. São diversas datas oportunas para se travar o debate e realizar ações, a exemplo do Dia do Estudante (11/08), Dia da Infância (24), Dia Nacional da Educação Infantil (25), além do Dia Nacional dos Direitos Humanos, comemorado no último 12 de agosto.

Considerando os princípios fundamentais da declaração dos Direitos Humanos, foi que em 1990 se instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Portanto, em 2015 o ECA completou 25 anos de existência. Essa data tão simbólica poderia ser usada para se discutir medidas que garantam à criança e ao adolescente o direito à Educação, com “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”, como prevê o artigo 53 do ECA. Também no Estatuto se discutem as medidas socioeducativas que devem ser aplicadas às crianças e adolescentes condenadas por algum crime.

Projeto Buscapé: discutindo os princípios do ECA e Direitos Humanos nas escolas públicas


No entanto, o que se percebe é que a sociedade brasileira vem num processo crescente de desvalorização e até enfrentamento dos princípios defendidos pelo ECA e pela própria declaração dos Direitos Humanos. A desinformação é um dos principais fatores para deturpar esses instrumentos, muitas vezes bloqueando o debate ao sentenciar que tais documentos servem para “defender bandido”. Esse preconceito e indisposição ao debate permite que pautas retrógradas avancem no país. É o caso do projeto de lei que prevê a redução da maioridade penal para 16 anos.

É nítido que a proposta de redução tem mais objetivos político-partidários do que, de fato, combater a violência no Brasil. É tendência mundial que a idade mínima seja de 18 anos. Até mesmo em países como os Estados Unidos, em que alguns estados, como Texas e Nova York, possuem maioridade de 16 anos, já estão avançando projetos de leis defendendo a ampliação da maioridade. Ou seja, países de todos os continentes do mundo defendem a idade mínima de 18 anos, enquanto que outros, que passaram pela experiência de redução, estão voltando atrás.

O Brasil, infelizmente, anda na contramão do mundo, acreditando que trancafiar pessoas de 16 e 17 anos no mesmo presídio que adultos e privados de receber medidas socioeducativas específicas, dentro de um sistema prisional que já se revela falido, vai reduzir a violência. O mundo provou que não, mas a ausência de debate por aqui permite que cada vez mais pessoas apoiem a redução.

Vida Brasil participando do ato Contra a Redução da Maioridade Penal


E enquanto o debate nacional se limita à pauta da redução, o país perde a oportunidade de discutir outras ações mais oportunas no combate à violência. A educação, por exemplo. A realidade cotidiana tem revelado que as escolas estão cada vez mais desprestigiadas e que a competição com o mundo fora dos muros da escola está cada vez mais desleal. Além disso, sobretudo as crianças e adolescentes da periferia vivem em um contexto de exclusão de diversos direitos fundamentais, como moradia digna, acesso a bens e serviços públicos e culturais, acesso a transporte público e de qualidade, que acabam influenciando sua formação, o afastando cada vez mais do processo educativo e lhe aproximando do universo do crime, vislumbrados pelo poder e riqueza que o tráfico de drogas finge ofertar.

E a mesma Câmara dos Deputados que avança no projeto de redução é a mesma que em julho rejeitou a oferta do ensino médio obrigatório nas prisões.

Reduzir a redução da maioridade penal e negar os princípios do ECA e dos Direitos Humanos não reduz a violência. Ao contrário, tende a aumentar. E quem paga por isso, inclusive com a própria vida, é a população mais pobre, sobretudo as crianças e adolescentes negras. A quem interessa, então, a redução da maioridade penal?

Oportunamente, agosto também é significativo para o movimento negro, que promove diversas atividades de combate ao racismo durante o mês, além da realização da marcha mundial contra o genocídio da população negra. Por ser esse o segmento que mais sofre com a violência, é que a pauta da redução está diretamente ligada às pautas do movimento negro, de quem a Vida Brasil sempre atuou como parceira e continua colaborando com as ações realizadas por diversas entidades.

Vida Brasil participando da aula pública com estudantes da rede pública sobre a "Revolta dos Búzios", atividade do "Agosto Negro", promovido pela CONEN.


Portanto, além de ser contrária à redução, a Vida Brasil segue tentando contribuir com a alteração desse cenário de violência sofrido pela sociedade, sobretudo pela população negra. Além de incidir politicamente e defender os Direitos Humanos para todos e todas – e não apenas para quem possui dinheiro e poder – a Vida Brasil acredita na valorização da educação das crianças e adolescentes.

Há 19 anos a Vida Brasil trabalha no projeto Buscapé, se valendo da arte e da educação para contribuir na formação de jovens; defende o programa de acessibilidade e educação inclusiva; promove o intercâmbio com grupos de outros países, a exemplo do Malagasy, grupo cultural composto por meninas de Madagascar e que foi recebido pela Vida Brasil em 2014; e busca incidir politicamente, como na participação em atos contra a redução da maioridade penal, organizado pela Frente Estadual Contra a Redução; no apoio ao ICS (Instituto Cidadania Suburbana) para a realização do seminário “Subúrbio debate a PEC 171”; além da atuação em conselhos, a exemplo do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e dos Adolescentes.

Malagasy, grupo cultural do Madagascar, participando de um intercâmbio em Salvador, apoiado pela Vida Brasil.


Dessa forma, a Vida Brasil aproveita o mês de agosto, significativo para quem luta pelo direito à educação das crianças e adolescentes, para novamente se posicionar contrária à redução da maioridade penal, e a favor de programas que valorizem a educação dos nossos jovens.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Vida Brasil participou de Seminário que discutiu os 24 anos da Lei de Cotas (8213/91)

Islândia Costa e Heron Cordeiro
Na última sexta-feira, 31 de julho, os coordenadores do programa de Acessibilidade da Vida Brasil, Islândia Costa e Heron Cordeiro, participaram do Seminário “Avanços e Desafios na Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mundo do Trabalho”. O evento promovido pelo Ministério Público do Trabalho reuniu, em Salvador, empresários, funcionários, representantes do movimento social e do poder público para debater a participação das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, em decorrência dos 24 anos da Lei 8213/91.

A “Lei de Cotas”, como é conhecida, exige que as empresas destinem vagas de trabalho para pessoas com deficiência, garantindo os seus direitos sociais e inclusão na sociedade. No entanto, os dados apresentados no Seminário indicam que apenas 0,73% das pessoas com deficiência na Bahia estão atuando no mercado de trabalho.

Para Islândia Costa, essa conquista é progressiva e tem que vir acompanhada de outros suportes, que não seja simplesmente a garantia das vagas. Ela citou o próprio processo de conquista de direitos das mulheres na sociedade, que em um passado recente nem direito ao voto tinham. Para Islândia, a garantia de oportunidades e tratamento justo para as pessoas com deficiência também é processual, por isso a Lei de Cotas não é suficiente, é preciso outras medidas complementares. A necessidade de empresas adaptadas e acessíveis, além da sensibilidade do contratante de respeitar as potencialidades e limitações do empregado são fundamentais para evitar desvios de funções e preservar boas condições de trabalho.

Islândia Costa, coordenadora do programa de Acessibilidade da Vida Brasil

Os participantes do Seminário também destacaram que não se contrata apenas um funcionário para exercer uma atividade laboral, mas também um ser humano, com suas especificidades que devem ser respeitadas. No caso de pessoas com deficiência, é necessário que o contratante não esteja apenas preocupado em cumprir a Lei de Cotas, mas que saiba se relacionar com o contratado para encontrar a melhor forma de incluí-lo nas atividades, de modo que seja satisfatório para ambas as partes.




sexta-feira, 24 de julho de 2015

Da Bahia para Marrocos: a Vida Brasil assessora o Coletivo Marroquino das Organizações de Pessoas com Deficiência

Mais um trabalho de cooperação internacional da Vida Brasil em prol dos direitos das pessoas com deficiência. Desta vez, foi lançado em Marrocos, no Norte da África, o “Guia metodológico sobre técnicas de incidência, desenvolvimento inclusivo e a animação participativa” (Guide méthodologoque sur les techniques de plaidoyer, développement inclusif et animation participative). O trabalho é fruto da colaboração entre a Vida Brasil e o Coletivo Marroquino para Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, que reúne as principais organizações de pessoas com deficiência de Marrocos. A ação é parte de um projeto maior de fortalecimento das organizações marroquinas de pessoas com deficiência, desenvolvido pelo Coletivo Marroquino com o apoio da União Européia.



O trabalho de assessoria da Vida Brasil passou por dois momentos. No final de outubro de 2014, Damien Hazard administrou em Rabat uma formação de 20 formadores, que tratou de pedagogia inclusiva, direitos humanos e das pessoas com deficiência, desenvolvimento inclusivo e estratégias de incidência sociopolítica.

O segundo momento foi a elaboração do Guia, destinado a orientar as praticas pedagógicas, técnicas e políticas dos representantes das organizações em questões de inclusão social. O guia foi construído com base nos trabalhos do programa de Acessibilidade da Vida Brasil e do Coletivo Marroquino, e constitui a principal ferramenta das pessoas formadas.

Damien Hazard (Vida Brasil) durante formação no Marrocos


Os militantes e profissionais de organizações de pessoas com deficiência e de movimentos sociais marroquinos, qualificados e agora assessorados pelo Guia, tornaram-se formadores: estão realizando este ano oficinas de sensibilização nas diversas regiões de Marrocos, contribuindo para disseminar juntos a lideranças na sociedade civil e representantes governamentais uma nova visão acerca das pessoas com deficiência, dos seus direitos e do desenvolvimento inclusivo.


A Vida Brasil orgulha-se desta parceria e desta assessoria em Marrocos, que amplia sua atuação em países africanos, além de estar profundamente relacionadas com a sua missão: “contribuir, por meio da educação e da participação, para construção de uma sociedade inclusiva, democrática e sustentável”.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A utopia de se ter um Marco Regulatório das Comunicações

Artigo originalmente publicado pela Abong:
http://www.abong.org.br/informes.php?id=8893&it=8895

Por Alex Hercog*



De acordo com o cineasta Fernando Birri, a utopia é algo que está no horizonte e serve para fazer o indivíduo caminhar, ainda que ela se distancie a cada passo. Esse pensamento do argentino, erroneamente atribuído ao uruguaio Eduardo Galeano, resume bem a trajetória dos movimentos pela democratização da comunicação no Brasil.

Por aqui, a utopia se chama Marco Regulatório das Comunicações. Na Argentina e no Uruguai, por exemplo, ela se chamava “Ley de Medios”. Por lá, nos últimos anos, esse horizonte foi alcançado e agora o que motiva a caminhada é que as leis criadas possam ter incidência prática e, de fato, democratizar a comunicação nesses países.

No Brasil, a busca por um marco legal que venha a regulamentar os artigos constitucionais referentes à Comunicação Social é o principal aglutinador político dos movimentos no País. Com a perspectiva política é que surgiu o FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação), em 1991, reunindo diversas entidades, atualmente cerca de 300.

Após a primeira Conferência Nacional de Comunicação, em 2009, o FNDC lançou a Plataforma para o Marco Regulatório das Comunicações. Em 2012, a partir desse texto base, foi lançado pelo movimento social o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, com a proposta de coletar assinaturas, a partir da Campanha “Para Expressar a Liberdade”, e encaminhá-las ao Congresso.

No entanto, a quantidade de assinaturas coletadas tem sido muito abaixo das expectativas e em muitos Estados a mobilização tem se enfraquecido. Para piorar, uma previsão “antiutópica”: não haverá o Marco Regulatório nos próximos três anos. Provavelmente nem nos próximos sete, talvez nem em onze anos.

Promessa do governo Lula, o projeto de lei nunca foi apresentado, muito provavelmente pelo receio do ex-presidente de enfrentar a grande mídia, justo em um período em que ele já sofria duros ataques midiáticos com o objetivo de desestabilizar o seu governo. Já no mandato de Dilma, essa pauta foi abortada e só surgiu novamente durante a campanha eleitoral de 2014. Vencida a eleição, Dilma voltou a se abster dessa discussão. Ou seja, os governos petistas, favoráveis à regulamentação, não conseguiram ou não quiseram defender esse projeto.

Além disso, o Brasil possui hoje uma de suas piores composições parlamentares da história. O Congresso é conservador e, de acordo com o Intervozes, 44 deputados federais e senadores são detentores de concessões de Rádio e TV. Desta forma, o cenário político do País não prevê a possibilidade de regulamentar a comunicação, por inércia do governo e porque isso contraria os interesses dos parlamentares.

Em 2018, caso o improvável ocorra e o PT ganhe novamente a presidência, será difícil acreditar em promessas que não se concretizaram em 16 anos de poder. Se o PSDB ganhar, a pauta da regulamentação retrocede e serão mais quatro ou oito anos de caminhada rumo ao horizonte inalcançável.

No entanto, a utopia de Fernando Birri se ratifica na prática quando se observa que todos esses anos não foram em vão. Apesar de os movimentos de comunicação no Brasil não terem alcançado o Marco e nem tenham um cenário propício para alcançá-lo, muitos avanços estão ocorrendo.

No final de maio de 2015, a Rede Bandeirantes fechou um acordo com o Ministério Público Federal em São Paulo e terá que exibir 72 vezes, durante os intervalos dos programas Brasil Urgente e Jornal da Band, uma campanha que mostre a diversidade religiosa do Brasil, afirmando a laicidade do Estado. Essa decisão foi decorrente de uma ação movida contra a emissora após o apresentador José Luiz Datena ofender ateus e atribuir um homicídio à “ausência de Deus” por parte do assassino.

Uma semana depois, a Band Bahia também foi condenada, novamente após infrações cometidas em um programa policial, desta vez o Brasil Urgente Bahia. O episódio, conhecido como “caso Mirella Cunha”, se refere à exibição ao vivo em que a repórter humilha e debocha de seu entrevistado, acusado de cometer um estupro. Para o juiz da sentença, Mirella Cunha “superou qualquer limite de ética e bom senso na atividade jornalística” e lembrou que até mesmo acusados de crimes hediondos possuem direitos básicos dentro de um Estado Democrático de Direito. A punição da Band foi o pagamento de R$ 60 mil por dano moral coletivo.

Já no final de junho de 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento de pontos fundamentais da “Lei da TV Paga”, sancionada em 2011. O processo defendido pela Sky e DEM busca derrubar alguns pontos da lei que regula a TV fechada. O relator da ação é o ministro Luiz Fux, que deu voto favorável à Lei. Na defesa de seu voto, ele garantiu a constitucionalidade da cota exigida para exibição de produção nacional e o veto à propriedade cruzada¹. O ministro afirmou que a Lei da TV Paga contribui para a diversidade de conteúdo e de novos produtores, além do que o controle de mercado está previsto na Constituição e visa a “coibir o abuso do poder econômico e evitar a concentração excessiva dos mercados”. Após recesso em julho, a votação continuará no STF.

Mas, os bons exemplos não estão apenas no Judiciário. Na sociedade, organizada ou desorganizada, pessoas, coletivos e entidades vêm contribuindo para democratizar a comunicação no Brasil. Cada um ao seu modo, seja debatendo, seja produzindo.

Em uma página no Facebook, o Jornal Alemão Notícias, com mais de 12 mil seguidores, publica notícias de interesse do Complexo do Alemão (Rio de Janeiro). Não raro são feitas coberturas em tempo real de ações policiais como forma de proteger seus moradores de possíveis arbitrariedades cometidas pela polícia. É a comunicação como arma de defesa em um ambiente em que a ausência do Estado só é preenchida pela força policial.

Em Fortaleza, o Coletivo Nigéria produz documentários como o filme Com Vandalismo, que aborda as manifestações de junho de 2013, apresentando perspectivas excluídas da cobertura da grande mídia durante os protestos. Na Bahia, o portal Correio Nagô publica notícias com um recorte racial para ocupar o vazio deixado pela mídia tradicional, que exclui os negros de sua pauta. Com essa mesma perspectiva, jovens jornalistas baianas recém-formadas produzem a Revista Afirmativa.

No interior da Bahia, a rádio comunitária Coité FM, que desde 1998 luta por uma concessão pública, usa a internet para transmitir seus programas e reportagens, boa parte cobrindo acontecimentos do município. Nas tribos, o Cine Kurumin aproxima os indígenas da produção cinematográfica, resultando em obras realizadas pelos próprios índios. Em toda a internet, surgem blogueiros produzindo conteúdo e debatendo a mídia tradicional.

Internet esta que, por sua vez, representa outro avanço no Brasil. No caso, o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014 e que é exemplo para todo o mundo. No período da votação, o movimento social, alguns deputados e o governo federal tiveram papel chave para garantir alguns pontos fundamentais, como a neutralidade da rede, contrariando os interesses das grandes empresas de telecomunicações e representando um ganho para a sociedade.

Ou seja, enquanto o Marco Regulatório das Comunicações é algo utópico, o desejo por democratizar a comunicação tem feito com que diversas pessoas e entidades caminhem. Se aproximam dois passos, e o Marco se afasta dois passos. Andam dez passos e o horizonte se distancia dez passos. E assim os movimentos pela democratização da comunicação no Brasil seguem caminhando...

*Alex Hercog é assessor de comunicação da Associação Vida Brasil (organização associada à Abong) e membro do CBCom - Coletivo Baiano pelo Direito à Comunicação.

¹O objetivo de limitar a propriedade cruzada é restringir que um mesmo grupo empresarial controle hegemonicamente as emissoras de TV e Rádio, revistas e jornais impressos de um determinado município para, assim, seguir a Constituição e impedir o monopólio. Países como Estados Unidos, Argentina e Inglaterra, por exemplo, também limitam a propriedade cruzada.